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“71 segundos”, a façanha eternizada

junho 25, 2009

0,,11214716-EX,00Enquanto aguardava para fazer a entrevista, lembrei de uma frase que ouvi há alguns dias atrás: “Esse tempo ruim combina com nostalgia”. Logo, São Pedro não poderia ter dado uma colaboração melhor nessa terça-feira (23). Numa tarde-noite chuvosa, em Porto Alegre, foi num cantinho mais reservado da barulhenta redação- como naturalmente são as redações- da Zero Hora que o jornalista Luiz Zini Pires relembrou, com um ar quase que melancólico, daquele 26 de novembro de 2005. O dia que marcou a vida não só dos gremistas, mas de todos que de alguma maneira tem uma ligação com o retorno épico do Grêmio Foot-Ball Porto-Alegrense a Série A.

Autor do livro “71 Segundos, O Jogo de Uma VidaA tarde em que o Grêmio jogou, ganhou e foi campeão com sete jogadores”, da L&PM, Zini acredita que “A Batalha dos Aflitos” – como foi intitulado o jogo- seja o fato mais importante da história atual do clube.  Nunca crise financeira profunda, onde própria justiça foi ao Olímpico investigar sobre o dinheiro e as demais coisas que envolviam o tricolor e seu patrocinador, o Grêmio caiu para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro e voltou de forma heróica à elite do futebol.

“Esse título da Série B, também, foi um momento muito especial, porque foi o renascimento do clube. Parece que o Grêmio recuperou as forças que o levaram a ganhar todos aqueles títulos e jogos memoráveis do passado”, diz o jornalista.

Mais do que retornar a Serie A, o Grêmio recuperou toda a paixão que a torcida tinha. Quando um time cai para a segunda divisão a torcida sente. E grande parte o abandona, porque o ele é divido em vários segmentos de torcida: tem aquele que vai sempre ao estádio; aquele que vai de vez em quando; aquele que nunca vai; aquele que se diz torcedor só porque tem que ser de um ou de outro. Num momento crítico do time muita gente começa a se afastar. Porém, quando o time se supera, faz uma jornada incrível, esses torcedores voltam, a maioria volta. Foi o que aconteceu com o tricolor gaúcho, na ótica de Zini: “Essa vitória do Grêmio lá em Recife vez com que tudo isso retornasse, essa paixão pelo Grêmio, que estava um pouco adormecida nos corações de milhares de pessoas, voltasse à tona naquele dia. Isso faz com que o clube se fortaleça mais, os torcedores comecem a vibrar mais, a ir mais ao clube”.

O livro

Para o jornalista, que ficou em Porto Alegre e assistiu pela televisão, o episódio épico tinha que entrar para a literatura. A justificativa é dada pelo fato que os jornais se perdem e na internet tem muita coisa que não é verdade. Zini conta como ocorreu a decisão: “Estava em férias, na praia do Rosa – SC, mas a ideia de escrever um livro sobre o jogo não saia da minha da cabeça. Foi, então, que encontrei o dirigente do Grêmio Alfredo Oliveira e pensei: isto é um sinal! Depois, o encontrei novamente e expus a minha ideia e ele me disse que abria o Olímpico, e eu poderia falar com quem quisesse. Daí eu topei. Quando voltei de Santa Catarina, comecei a pesquisar”.

Em um ano de pesquisas Zini conta que conversou com os protagonistas da decisão, do presidente ao porteiro do clube, além de jornalistas e torcedores. Segundo o jornalista, foi um trabalho minucioso, pois foi preciso verificar os fatos das histórias contadas. “Todos estavam interessados em dar depoimentos. Sem exceções estavam muito emocionados, muito marcados. Todos tinham uma história para contar, porque foi tão forte, tão definitivo na vida de todo mundo que eles tinham uma necessidade de contar, de dividir o que viveram. Mas, as que não fechavam uma com as outras tive que cortar”, relembra.

Dentre tantos depoimentos que ouviu, o jornalista destaca a história do vice-presidente de finanças do tricolor na ocasião, Túlio Macedo, que ficara na capital gaúcha e escutava a transmissão do jogo sozinho no Olímpico. Em dado momento, Macedo começou a circular pelo estádio e, segundo seu relato, parecia que via fantasma de ex dirigentes, ex jogadores, torcedores em meio a um silêncio ensurdecedor de um Olímpico vazio. “Parecia que naquele momento ele buscava forças do além, pedia ajuda. Para que esse além desse uma mão para o Grêmio, e o time conseguisse superar aquele momento trágico”, conta Zini. Mas outra história tocou o jornalista, numa conversa sincera o arbitro do jogo, Djalma Beltrami, abriu seu coração. Como conta o autor: “O juiz, que aparece quase no final do livro, diz que o Anderson fez aquele gol para ele. Para salvar a sua arbitragem, por consequência, sua carreira. Se o Anderson não faz aquele gol, a carreia de Beltrami ia de alguma maneira desmoronar, porque ele errou várias vezes. Ele não diz, mas sabe que errou”.

Sendo o livro de futebol mais vencido no Rio Grande do Sul e o 5º no país, Zini credita o sucesso de vendas ao fato de mostrar um episódio único na vida de um clube. Setenta e um segundos não fala só do episódio em si, traz histórias dos bastidores, de vestiário, os diálogos dos jogadores durante a partida.  Um toque de jornalismo literário, usando uma linguagem de romance, é o que diferencia a obra de Zini das demais já escritas que contam a história do clube, do jogador, de um jogo, mas se prendem aos fatos sem dar dramaticidade.  “Eu tentei de alguma forma transportar o leitor para a história. Ele se encontra em todo o livro, se vê seja com o jogador, com o dirigente, com o cara que quis dar um pau no juiz, ou cara que vai abraçar o Anderson no final. Quis escapar da mesmice da maneira que normalmente são feitos os livros sobre futebol”, justifica.

Curiosidade

Setenta e um segundos é o tempo exato entre o segundo pênalti que o goleiro Galatto defendeu e gol do título, marcado pelo craque-menino Anderson.

O jogo

Ficha técnica de Náutico x Grêmio*

Data: 26 de novembro de 2005

Local : Estádio dos Aflitos, em Recife, Pernambuco.

Náutico (0): Rodolpho, Bruno Carvalho (Miltinho), Batata, Tuca  e Ademar, Tozo (Paulinho), Cleisson, David (Romualdo) e Danilo, Paulo Matos e Kuki.

Grêmio (1): Galatto, Patrício, Domingues, Pereira e Escalona, Nunes, Sandro Goiano, Marcelo Costa e Marcel (Anderson), Ricardinho (Lucas) e Lipatin (Marcelo Oliveria).

Gol: Anderson, aos 60min51seg do segundo tempo.

Expulsões: Escalona, Patrício, Nunes e Domingues (G) e Batata (N).

Arbitragem: Djalma Beltramo (RJ), auxiliado por Hilton Moutinho Rodrigues (FIFA-RJ) e Carlos Henrique Alves de Lima (RJ).

Público: 22.353 espectadores.

Renda: R$ 302.070,00

*PIRES, Luiz Zini. 71 Segundos, O Jogo de Uma VidaA tarde em que o Grêmio jogou, ganhou e foi campeão com sete jogadores. Porto Alegre: L&PM, 2006.

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4 Comentários leave one →
  1. junho 28, 2009 9:10 pm

    Com certeza é um belo livro sobre futebol. Até eu, colorado de alma, obriguei-me à comprar a obra. Zini descreveu com maestria a historia de um jogo que ficou marcado na historia do arquirrival.
    Ah! Claro, cada um se orgulha das conquistas que tem: o tricolor com a segundona e o colorado com o mundial… eheheh
    bjão.

  2. Glauco Bittencourt permalink
    junho 30, 2009 6:17 pm

    Belo texto, Cris. A história é incomum, vale um livro.
    Fiquei com vontade de comprar o livro.

  3. Juliana Serra permalink
    junho 30, 2009 6:27 pm

    Muito bom o texto Cris! Agora tu vai ter que me dar o livro, hein?! hehe. Muito boa a descrição que tu fez sobre o livro. Sem falar no jogo que foi inesquecível. Me lembro da mãe dizendo: “Calma gente, o Grêmio vai ganhar”, hehe.
    Ja virei tua fã, big Ju. Hehehe
    Ah e eu quero ler mais entrevistas como essa, tá? hehe.

    Ass: Leitora Numero 2 😛

  4. Demétrio de Azeredo Soster permalink
    agosto 21, 2009 7:46 pm

    Oi, menina; passei pra dizer oi. E parabéns pelo (s) blog (s): e/são muito bacanas. Grande abraço!

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